O apóstolo Paulo escreveu a primeira
carta aos coríntios com a finalidade de responder alguns questionamentos da
igreja e exortá-la quanto a unidade. Paulo tomou conhecimento, pelos da casa de
Cloe (1Co 1.11), de que a igreja em Corinto estava enfrentando problemas
relacionados a comunhão. Além disso, os crentes tinham dúvidas relacionadas a
alguns assuntos, dentre eles, se um cristão poderia comer carnes sacrificadas a
ídolos.
A resposta de Paulo foi: "23Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas são lícitas, mas nem todas edificam." (1Co 10.23 ARA). Aqueles que são dominados pelo legalismo ou moralismo, geralmente, se utilizam desse versículo para fundamentar que os cristãos devem se abster de determinadas práticas. Todavia, se esquecem de ler o restante do texto: "24Ninguém busque o seu próprio interesse, e sim o de outrem. 25Comei de tudo o que se vende no mercado, sem nada perguntardes por motivo de consciência; 26porque do Senhor é a terra e a sua plenitude. 27Se algum dentre os incrédulos vos convidar, e quiserdes ir, comei de tudo o que for posto diante de vós, sem nada perguntardes por motivo de consciência. 28Porém, se alguém vos disser: Isto é coisa sacrificada a ídolo, não comais, por causa daquele que vos advertiu e por causa da consciência; 29consciência, digo, não a tua propriamente, mas a do outro. Pois por que há de ser julgada a minha liberdade pela consciência alheia? 30Se eu participo com ações de graças, por que hei de ser vituperado por causa daquilo por que dou graças?" (1Co 10.24–30 ARA).
Comentando o texto de 1Coríntios 10, Simon J. Kistemaker disse: “Fica implícito que os cristãos judeus podiam comprar carne no mercado de carne e não deviam fazer perguntas sobre a origem de tal carne quando a consumiam. Mesmo que o alimento tivesse sido oferecido a um ídolo, isso não deveria ser questão de consciência para os coríntios, porque Deus é o Senhor da criação. Se o Senhor, que criou todas as coisas, santifica o alimento, então os cristãos podem aceitá-lo da mão dele em resposta à petição: “Dá-nos hoje nosso pão de cada dia” (Mt 6.11)”.
Anualmente, nos meses de junho e julho, os cristãos brasileiros contemporâneos ficam em dúvidas quanto a participação em festas juninas. Isso ocorre porque algumas escolas, públicas ou particulares, realizam tais festas e as famílias precisam tomar uma decisão quanto a presença ou não de seus filhos. Alguns cristãos têm uma postura radical vinculando a participação a idolatria. Outros, entretanto, participam sem qualquer julgamento. Mas, com base na Escritura, precisamos tomar cuidado com os extremos.
Em 1Coríntios 10.23-33, Paulo afirma, em primeiro lugar, que os cristãos não podem participar de festas ou cultos idólatras. Em segundo lugar, os cristãos não podem participar de celebrações idólatras. Em terceiro lugar, os cristãos podem comer alimentos sacrificados a ídolos desde que não tomem conhecimento de sua procedência. Paulo explica que o problema não é comer o alimento sacrificado a ídolos, mas a consciência de quem ofereceu. Então, para não levar o outro ao escândalo Paulo diz que o cristão deve se abster de tais alimentos. Pois, comer alimentos sacrificados a ídolos, conscientemente, é pecado por causa do escândalo.
Numa certa feita, disse Jesus: "18Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar, 19porque não lhe entra no coração, mas no ventre, e sai para lugar escuso? E, assim, considerou ele puros todos os alimentos. 20E dizia: O que sai do homem, isso é o que o contamina." (Mc 7.18–20 ARA). Sendo assim, alimentos não contaminam o cristão, mas atitudes pecaminosas sim. E, no contexto da carta aos coríntios, quando um cristão come um alimento sacrificado a ídolo na casa de um gentio idólatra, sabendo disso, ele está ferindo a consciência do anfitrião. Visto que o gentio pode ficar escandalizado pela postura “liberal” acusando o cristão de sincretista.
Comentando o texto da primeira carta aos coríntios, João Calvino disse: “Paulo nos adverte sobre o perigo que resultaria, se fizermos uso de nossa liberdade sem reservas, dando ocasião de escândalo a nosso próximo, e assim ele nos condenará. Assim, através de nosso erro e nossa ação irrefletida, a conseqüência será que este benefício especial da parte de Deus será condenado. Se não nos pusermos em guarda contra tal perigo, corrompemos nossa liberdade em virtude de a usarmos mal. Esta consideração, pois, tende muito mais a confirmar a exortação de Paulo”.
João Calvino diz que a liberdade cristã é um “benefício especial da parte de Deus” aos cristãos. Mas devemos fazer uso dessa liberdade com sabedoria. Paulo disse aos coríntios: "4No tocante à comida sacrificada a ídolos, sabemos que o ídolo, de si mesmo, nada é no mundo e que não há senão um só Deus." (1Co 8.4 ARA). Deste modo, o problema não é se alimentar daquilo que foi sacrificado a ídolos, mas macular a consciência do idólatra.
Cristãos sábios compreendem que a consciência do outro deve ser considerada. Os cristãos não podem ter uma postura de desprezo em relação a consciência do outro. Causar escândalo é um pecado que os cristãos devem evitar. Alguns crentes possuem uma postura egoísta quando afirmam que não precisam viver em prol dos outros. Todavia, o cristianismo nos ensina a viver uma vida para Deus e para o próximo. Alimentar-se, conscientemente, de carne sacrificada a ídolos na casa de um ímpio pode ser causa de tropeço e escândalo para o outro, então, nós devemos nos abster.
Mas o que é a Festa Junina? A festa junina é uma festa cultural que mistura elementos religiosos e tradicionais da cultura brasileira. Religiosamente, está vinculada aos dias dos santos Antônio, João e Pedro da tradição católico-romana. A festa é realizada por paróquias romanas, escolas, associações de moradores, prefeituras e empresas. Sendo assim, alguns contextos são religiosos e outros não. Nas paróquias, escolas confessionais romanas ou outras instituições ligadas ao romanismo, a festa junina pode estar vinculada a missas ou outras celebrações idólatras. Mas, nos outros contextos, geralmente não há qualquer conotação religiosa, apenas cultural.
A Escritura não traz instruções sobre a participação de cristãos em festas juninas, mas traz princípios eternos que podem ser aplicados nessa ocasião. Como vimos, há dois ambientes distintos onde as festas juninas são realizadas – ambiente religioso e ambiente estritamente cultural. Diante do que vimos até então, podemos afirmar que os cristãos devem se abster da participação em festas juninas realizadas em ambientes religiosos por causas das celebrações idólatras. Todavia, em ambientes meramente culturais não podemos afirmar que a participação em tal festa seja proibido. Mas também não é incentivada. A liberdade cristã concede aos cristãos a capacidade de escolher fundamentos na fé e consciência. Logo, participar não é pecado nem deixar de participar é uma ordem divina. Baseado em 1Coríntios 11.23-33, fica a critério de cada cristão e de cada família a participação ou não nesses eventos.
Entretanto, é necessário levar em consideração a consciência alheia. Se a participação em tais festas pode gerar escândalo na família, na igreja ou nos ímpios ao nosso redor, devemos nos abster de tal participação. Por mais que o ambiente não seja proibido, e que as comidas possam ser consumidas, a consciência alheia deve ser considerada. É necessário refletir no que Paulo disse: "31Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. 32Não vos torneis causa de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem tampouco para a igreja de Deus, 33assim como também eu procuro, em tudo, ser agradável a todos, não buscando o meu próprio interesse, mas o de muitos, para que sejam salvos." (1Co 10.31–33 ARA).
A vida cristã é integral e intencional. Vivemos para a glória de Deus em todas as esferas (pública ou privada). O cristianismo não é vivido apenas “dentro de quatro paredes”. O cristianismo é uma religião prática que envolve o âmbito social, familiar e eclesiástico. Por isso, afirmamos que o cristianismo é vivido integralmente e intencionalmente, ou seja, com o objetivo de glorificar o nome de Deus. Então, a participação numa festa junina ou alimentar-se daquilo que é vendido nelas deve ser para a glória de Deus. Se realizar tais coisas traz escândalo para o evangelho e para o nome de Deus não estamos glorificando o Seu Nome. No cristianismo bíblico não há espaço para “ninguém tem nada a ver com a minha vida” porque somos convocados a viver para Deus e para o próximo (cf. Mt 22.37-40), enquanto somos chamados a negar a nós mesmos (cf. Mc 8.34).

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