O alimento,
por vezes, é um ídolo. Alguns dizem: “Estou angustiado, preciso comer alguma
coisa”. Ou dizem: “Estou deprimido, preciso afogar as mágoas na bebida”. Há
quem diga: “Estou muito feliz, vamos beber até amanhã!”. Perceba que seja na
tristeza ou na alegria o homem natural tende a entregar-se ao ídolo da bebida
ou comida.
Tudo
o que você não consegue viver sem é um ídolo. Se para ser feliz é necessária
uma garrafa de cerveja, a bebida alcoólica é um ídolo. Se porque está ansioso
precisa de um pote de sorvete, a comida é um ídolo. Se perdeu um ente querido e
a vida não faz mais sentido, aquela pessoa é o seu ídolo. Se encontra
realização no sexo sem compromisso, o sexo é o seu ídolo. Assim, percebemos que a idolatria não está restrita à devoção imagética, mas a tudo aquilo que traz
conforto, segurança ou alegria ao nosso coração.
O jejum
é um ataque a um desses ídolos. O pão e a água são extremamente necessários
para a nossa subsistência. Mas, Moisés escreveu “não só de pão viverá o
homem, mas de tudo o que procede da boca do SENHOR viverá o homem” (Dt
8.3). Este foi o texto citado por Jesus quando confrontado pelo diabo no
deserto após quarenta dias e quarenta noites de jejum (cf. Mt 4.1-10). Pão e
água são necessários para sustentar o corpo, mas Deus é necessário para
preservar a vida. Disse Jesus: “Não é a vida mais do que o alimento [...] ?” (Mt
6.25). O jejum
na Escritura é uma declaração de completa dependência do Senhor. Jejuar é
deixar de alimentar o corpo para alimentar a alma. É dedicar-se exclusivamente
ao fortalecimento da alma a fim de viver para a glória de Deus.
No Antigo Testamento,
o jejum era uma prática cerimonial relacionada com o Dia da Expiação (cf. Lv
23.26-32). Seu objetivo era a contrição devido as transgressões da Lei, pois,
naquele dia, o sacerdote entraria nos Santos dos santos para realizar a propiciação
pelos pecados do povo. O povo de Israel jejuava em humilhação perante Deus por
causa dos pecados cometidos.
Há
outros jejuns mencionados no Antigo Testamento quanto a humilhação (Lv
16.29–34; 23.26–32; Nm 29.7–11; Dt 9.18; 1Rs 21.27; Nm 9.1ss; Dn 9.3,4; Jn 3.5)
ou lamentação (Jz 20.26; 1Sm 31.12; 1Cr 10.11,12; 2Sm 1.12; Ne 1.4; Jl 1.14;
2.12–15; 2Cr 20.3,5ss; Et 4.3; 9.31). Esses não foram jejuns decretados por
Deus, mas realizados segundo as necessidades dos servos de Deus. Algumas vezes jejuavam
por causa de situações de calamidades. Davi, por exemplo, jejuou quando seu
filho recém-nascido ficou doente. Daniel jejuava quando buscava orientação
especial da parte de Deus. Ester jejuou quando foi se apresentar ao rei Assuero.
No período
de Jesus, os fariseus jejuavam em busca da aprovação das pessoas. Eles
desconfiguravam o rosto com o objetivo de serem reconhecidos pelas pessoas (cf.
Mt 6.16; Lc 18.12). Era comum as pessoas aspergirem cinzas sobre a cabeça, andar
descalças e adotar uma expressão facial triste. Queriam parecer
insignificantes no intuito de significar tanto mais perante os outros.
Normalmente o jejum era realizado do nascer ao pôr-do-sol.
Jesus
não condenou a prática do jejum, mas condenou a forma como os fariseus jejuavam
(cf. Mt 6.16-18). Ele também disse que após a sua ressurreição os seus
discípulos poderiam jejuar (cf. Mt 9.14-17). Todavia, após a sua ressurreição,
o caráter cerimonial do jejum fora cumprido (cf. Cl 2.16-17; Is 61.1-4).
Mas ainda continuaria sendo uma devoção válida pelos crentes no Novo Testamento
(cf. Mc 9.29; At 13.2-3; 14.23). Tanto que também há registros históricos dos
reformadores e puritanos realizando o jejum.
O
jejum não é meramente uma prática externa, mas uma disposição correta do
coração para a glória de Deus (cf. Is 58). Nas Escrituras, o jejum está
relacionado com a autonegação e autodisciplina. O jejum é uma prática que
revela a nossa completa dependência do Senhor e o anseio por viver
piedosamente. O jejum é uma decisão de afligir o corpo a fim de dedicar-se à
alma (cf. 1Co 9.27; Cl 3.5).
Disse
Martyn Lloyd-Jones: “Jejuar é abster-se completamente de alimentos, na busca de certos alvos especiais, como a oração, a meditação ou a busca do Senhor, devido a alguma razão peculiar, ou sob circunstâncias especiais. [...] O jejum [...] é algo incomum, excepcional, algo que um homem põe em prática apenas ocasionalmente, com uma finalidade especial, ao passo que a disciplina pessoal deveria ser algo perpétuo e permanente”.
Segundo
J. C. Ryle: “O jejum, ou a abstinência ocasional de alimentos, a fim de trazer o corpo em sujeição ao espírito, é uma prática frequentemente mencionada na Bíblia e, em geral, vinculada à oração”. Disse John Stott: “A espiritualidade farisaica é voltada para o espetáculo, motivada pelo orgulho e recompensada apenas pelo louvor dos outros. A espiritualidade cristã é secreta, motivada pela humildade e recompensada por Deus”.
Portanto,
o jejum é uma prática saudável se for realizada pelos meios corretos. Ela não
deve se uma prática mecânica a fim de buscar uma resposta imediata de Deus ou com
a finalidade de “comprar" bênçãos de Deus. O jejum deve ser feito quando houver
necessidade, por razões espirituais, sem buscar a aprovação das pessoas,
desejando a mortificação de pecados, para o crescimento espiritual. Por isso, o jejum não é apenas deixar de se alimentar, mas investir todo o período de abstinência em
práticas devocionais e oração.

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