No
período medieval havia o entendimento de uma vida dicotômica, ou seja, uma vida
dividida entre sacro e profano. Alguns atos e ambientes estão num contexto
profano, enquanto outros num contexto sacro. Naquele tempo atos religiosos se
enquadravam no ambiente sacro. Sendo assim, ir à missa, confessar com o
sacerdote, realizar penitências, pagar indulgências, servir como sacerdote ou freira,
participar das rezas, fazia parte do lado sacro da vida. Enquanto isso, as
demais ações estavam vinculadas ao lado profano.
Com o advento da Reforma Protestante, os reformadores compreenderam que a vida cristã é integral. Por exemplo, certa feita um sapateiro perguntou a Lutero: “Como eu posso servir a Deus?” Lutero respondeu: “Faça o melhor sapato e vendo-o por um preço justo”. Para Calvino a vida cristã é Coram Deo (diante da face de Deus). Tudo o que pensamos, falamos, fazemos deve ser feito para a glória de Deus. Conforme disse Paulo: "31Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus." (1Co 10.31 ARA)
Em sua epístola aos efésios, o apóstolo Paulo disse que a igreja foi eleita antes da fundação do mundo para ser santa e irrepreensível (cf. Ef 1.4). Por isso, posteriormente, Paulo disse: “[...] andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados [...]” (Ef 4.1). Andar de modo digno é viver de acordo com o chamado: ser santo e irrepreensível. Por isso, no decorrer da parte prática da carta aos efésios, Paulo disse que “viver de modo digno da vocação” está relacionado com a vida pessoal, familiar, comunitária e civil. Deste modo, não há uma parte da vida cristã que não deva ser vivida para o Senhor.
Em sua primeira carta, o apóstolo Pedro realizou a mesma exortação: "15pelo contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento, 16porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo." (1Pe 1.15–16 ARA – grifo meu). Observe que Pedro diz que devemos viver em santidade em todo o nosso procedimento. Por isso, dissemos que a vida cristã é integral. Todavia, por causa do ranço católico romano, há muitos cristãos que acreditam que há partes da vida que não precisam receber o molde de Cristo.
Aos romanos, o apóstolo Paulo escreveu: "1Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. 2E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus." (Rm 12.1–2 ARA). O apóstolo afirma que os cristãos devem viver integralmente para a glória de Deus, pois a vida cristã é um “culto” a Deus. Por conta disso, cristãos não devem se conformar aos ditames deste mundo caído, mas renovar a mente conforme a Palavra de Deus.
Nós nascemos em iniquidade (cf. Sl 51.4), mortos em nossos delitos e pecados (cf. Ef 2.1-3), num mundo caído onde impera o mal (cf. Gn 3.14-19; 1Jo 5.19). Então, devemos desconfiar de todas as nossas práticas, pensamentos e inclinações. Não há nada neutro nesse mundo. E glorificar a Deus só é possível em Cristo no poder do Espírito Santo. Logo, é necessária, após a conversão, uma busca constante para moldar a mente e os atos ao padrão de Cristo. Devemos moldar o nosso caráter e personalidade à Cristo no poder do Espírito Santo que age em nós concede-nos maturidade espiritual. Não somos chamados a sermos uma versão melhor de nós mesmos, mas homens e mulheres mais parecidos com Cristo Jesus. Assim, nossos atos devem refletir os atos de Cristo, nossos pensamentos devem seguir a mente de Cristo e nossos lábios devem glorificar a Cristo.
O processo de santificação ocorre pelo poder do Espírito Santo. É o Espírito que nos torna mais parecidos com Cristo; mas isso acontece com a cooperação humana. Enquanto na justificação não há cooperação, na santificação existe cooperação. O Espírito nos concede o poder necessário para vivermos de acordo com a nova natureza em Cristo. O Espírito opera a mortificação do pecado em nós enquanto vivemos para a glória de Deus. O Espírito quebranta o nosso coração levando-nos ao arrependimento e à mudança de comportamento. O Espírito nos auxilia no processo de remover atos pecaminosos a fim de substituí-los pelas virtudes de Cristo.
Jamais podemos nos acostumar com o pecado. Pelo contrário, devemos odiar práticas que desonram o nome de Cristo – mesmo que seja parte da nossa personalidade. Não existe personalidade neutra, personalidade não afetada pela queda. Por isso, não podemos nos esquecer que o mesmo evangelho que nos redimiu é o evangelho que nos santifica. Precisamos do evangelho todos os dias. Precisamos do confronto das Escrituras que salta aos nossos olhos as sujeiras da nossa alma. Precisamos do evangelho que opera em nós a mudança necessária para glorificarmos a Cristo. Pois, conforme disse o autor da carta aos Hebreus: “[...] santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor [...]” (Hb 12.14).

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