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A IGREJA PODE ALTERAR O HORÁRIO DO CULTO POR CAUSA DE UM EVENTO ESPORTIVO?

 


A Igreja pode alterar o horário do Culto para que os cristãos possam assistir um evento esportivo? Esse tem sido o debate da semana referente ao jogo da Seleção Brasileira agendado para o dia 05 de junho de 2026 às 17h. Para muitos líderes religiosos, o horário do Culto pode ser alterado porque é um evento cultural. Enquanto outros afirmam que tal prática é inadmissível porque é uma transgressão do quarto mandamento da Lei de Deus. Também encontramos igrejas que decidiram colocar telões em seu espaço e, logo após, os crentes cultuarão.
 
Todavia, o que está em jogo não é necessariamente o horário do Culto, mas a observância (ou a falta dela) do Dia do Senhor. Acredito que o grande problema da igreja evangélica brasileira é o secularismo que influenciou a observância desse mandamento. Enquanto isso, nas igrejas reformadas, além do secularismo há a falta de compreensão e ensino quanto ao assunto. Talvez por isso, haja tanto debate quanto a mudança do horário do culto por causa do evento da Copa do Mundo de Futebol.
 
No entanto, antes de falarmos sobre se a igreja pode ou não alterar o horário do Culto precisamos tratar sobre o Dia do Senhor. Esse assunto é muito amplo e, portanto, não é possível esmiuçá-lo neste breve artigo. Para melhor compreensão do assunto sugiro literaturas reformadas, tais como “O Dia do Senhor” de Joseph Pipa e “Breve Catecismo sobre o Culto e a Adoração a Deus” de John Owen. Além disso, a Confissão de Fé de Westminster, os seus catecismos, e comentários escritos por A.A. Hodge e Chad Van Dixhoorn.
 
O que diz a Escritura? Lemos em Êxodo: "8Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. 9Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. 10Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; 11porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou." (Êx 20.8–11 ARA). A fé reformada compreende que o Sabbath (dia de descanso) foi cumprido por Cristo Jesus. Disse o apóstolo Paulo: "16Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, 17porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo." (Cl 2.16–17 ARA).
 
Também disse o autor da carta aos Hebreus: "3Nós, porém, que cremos, entramos no descanso, conforme Deus tem dito: Assim, jurei na minha ira: Não entrarão no meu descanso. Embora certamente, as obras estivessem concluídas desde a fundação do mundo. 4Porque, em certo lugar, assim disse, no tocante ao sétimo dia: E descansou Deus, no sétimo dia, de todas as obras que fizera. 5E novamente, no mesmo lugar: Não entrarão no meu descanso." (Hb 4.3–5 ARA). Ele ainda diz: "9Portanto, resta um repouso para o povo de Deus. 10Porque aquele que entrou no descanso de Deus, também ele mesmo descansou de suas obras, como Deus das suas." (Hb 4.9–10 ARA).
 
Segundo a fé reformada, o Sabbath foi cumprido por Cristo Jesus. Por isso, os crentes da Nova Aliança não estão mais sob o jugo das ordenanças da Antiga Aliança. O Sabbath apontava para a obra de Cristo em resgate da Sua Igreja. Em Cristo, nós descansamos das nossas obras e entramos no descanso de Deus. Em Cristo nós temos paz com Deus (cf. Rm 5.1). Em Cristo nenhuma condenação há (cf. Rm 8.1). Em Cristo nós encontramos a verdadeira paz (cf. Jo 14.27). Os cristãos da Nova Aliança não devem observar o Sabbath porque era sombra da obra de Cristo. Todos os ritos e ordenanças da Antiga Aliança caem em desuso com a vinda de Cristo. Jesus é a realidade da qual as sombras apontavam.
 
Entretanto, a fé reformada compreende que o princípio moral do Sabbath permanece para os crentes da Nova Aliança. Visto que os crentes do Novo Testamento preservaram a observância de um dia em sete para a adoração ao Senhor. Lemos em Atos dos Apóstolos: "7No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exortava-os e prolongou o discurso até à meia-noite." (At 20.7 ARA). Escreveu o apóstolo João: "10Achei-me em espírito, no dia do Senhor, e ouvi, por detrás de mim, grande voz, como de trombeta," (Ap 1.10 ARA). Os cristãos se reuniam no primeiro dia da semana por causa da ressurreição de Cristo dentre os mortos (cf. Lc 24.1). O que pode ser comprovado também através do documento Didaqué (II d.C.) que diz: “Aqueles que viviam na antiga ordem de coisas chegaram à nova esperança, e não observam mais o sábado, mas o dia do Senhor, em que a nossa vida se levantou por meio dele e da sua morte”.
 
Desde a ressurreição de Cristo a Igreja observa o primeiro dia da semana em vez do sétimo dia. O sétimo dia apontava para a criação enquanto o primeiro dia aponta para a nova criação em Cristo Jesus. Por isso, lemos no capítulo 21, seção 7, da Confissão de Fé de Westminster: “Como é da lei da natureza, que, em geral, uma devida proporção de tempo seja reservada para a adoração a Deus, assim, em Sua Palavra, por um mandamento positivo, moral e perpétuo, que vincula todos os homens em todas as épocas, Ele designou particularmente um dia em sete para um ser shabbath, para ser guardado como santo para Ele. Desde o início do mundo até a ressurreição de Cristo, [o Shabbath] foi o último dia da semana; e, desde a ressurreição de Cristo, foi mudado para o primeiro dia da semana — que, nas Escrituras, é chamado de Dia do Senhor, que deve continuar até o fim do mundo, como o shabbath cristão”.
 
Mas como a Igreja deve observar o Dia do Senhor? A seção 7 diz: “Este shabbath é, então, guardado santo para o Senhor, quando os homens, após a devida preparação de seus corações e a ordenação de antemão de seus negócios comuns, não apenas observam um santo descanso de suas próprias obras, palavras e pensamentos sobre seus empregos e recreações mundanos durante todo o dia; mas também se ocupam durante todo o tempo com os exercícios públicos e privados de adoração a Deus e nos deveres de necessidade e misericórdia”. Também lemos nas perguntas 60 e 61 do Breve Catecismo de Westminster: “O Shabbath deve ser santificado por um santo repouso durante todo o dia, mesmo de tais ocupações e recreações mundanas [isto é, temporais] que são lícitas em outros dias; e gastando todo o tempo nos exercícios públicos e privados de adoração a Deus, exceto tanto quanto for para ser tomado nas obras de necessidade e misericórdia. O quarto mandamento proíbe a omissão ou o cumprimento descuidado dos deveres exigidos, a profanação do dia pela ociosidade ou por fazer o que é em si pecaminoso, quer por pensamentos, quer palavras, quer obras desnecessárias, relacionados aos nossos empregos ou recreações mundanas”.
 
Sendo assim, os cristãos devem observar o Dia do Senhor descansando o corpo e alma. Descansamos o corpo deixando de realizar as obrigações comuns semanais e descansamos a alma servindo ao Senhor individualmente, em família e nas atividades públicas e eclesiásticas. O Dia do Senhor é um dia de foco, regozijo e deleite no Senhor. Devemos fugir do moralismo, ascetismo e legalismo que cria uma série de regras para a observância do Dia do Senhor (ou de qualquer outro dia). Também devemos fugir do secularismo e liberalismo que torna o Dia do Senhor num dia comum, de observância opcional, e desnecessária para a vida cristã. Então, ações e programações que afetam a observância do Dia do Senhor devem ser abandonadas para que o foco no descanso final que aguardamos em Cristo seja apreciado (cf. Hb 4).
 
Agora podemos entrar no debate se uma igreja pode ou não alterar o horário do Culto do Dia do Senhor. Antes de tudo, o horário do Culto faz parte do que chamamos em teologia do Culto, de circunstâncias do Culto. As Escrituras nos apresentam os elementos do culto (oração, leitura bíblica, pregação da Palavra, canções e administração dos sacramentos). Os elementos são ordenanças divinas que devem ser observados segundo os princípios da Palavra de Deus. Mas as circunstâncias do Culto são aquelas questões que não foram definidas pela Palavra de Deus e devem ser observadas pela liderança da igreja conforme os princípios e mandamentos de Deus e a prudência cristã. Tais circunstâncias são: horário do culto, instrumentos musicais, projetor, boletim etc.
 
No contexto evangélico brasileiro é comum igrejas possuírem Escola Bíblica Dominical pela manhã e Culto Solene à noite. Enfim, uma igreja pode alterar o horário do culto por questões diversas, dentre elas, o conflito de horário com um jogo de futebol? Sim e não. Isso vai depender das motivações e pressupostos. Uma igreja pode preservar o horário porque o horário é “sagrado”, porém, isso é apego à tradição humana. Outra igreja pode preservar o horário porque o Culto é inegociável. Isso é louvável porque, de fato, o Culto é inegociável. Também há igrejas que preservarão o horário do Culto para demonstrar publicamente o seu compromisso com a fidelidade. Mas isso pode ser uma motivação soberba e orgulhosa. Outras alterarão o horário para que os crentes fiquem livres para assistir ao jogo. Todavia, isso é secularismo. Encontramos também igrejas que alterarão o horário do culto porque situações externas podem atrapalhar a igreja a honrar o Culto ao Senhor. Isso é louvável porque é prudente. Essa igreja não está dando “carta branca” para os crentes assistirem ao jogo, mas está preocupada com a honra do Culto ao Senhor. Pois o apóstolo Paulo disse: "40Tudo, porém, seja feito com decência e ordem." (1Co 14.40 ARA).
 
Concluo afirmando que o Dia do Senhor deve ser observado pela igreja do Senhor com temor, respeito e deleite. Não é um Dia regado a “regrinhas”, mas a princípios da Palavra de Deus. Nesse dia, o cristão deve envidar todos os esforços para descansar o corpo e a alma. Nenhum dos mandamentos do Senhor são penosos para os cristãos. Disse Davi: "7A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos símplices. 8Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro e ilumina os olhos. 9O temor do Senhor é límpido e permanece para sempre; os juízos do Senhor são verdadeiros e todos igualmente, justos. 10São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos." (Sl 19.7–10 ARA).
 
O problema em si não é alterar ou não o horário do Culto, mas as motivações que estão por trás de tal decisão. Uma igreja pode alterar o horário do culto por motivações pecaminosas e outra preservar o horário do culto também por motivações pecaminosas. Mas uma coisa é certa: os cristãos devem observar o Dia do Senhor com alegria e reverência. Os cristãos devem se abster de práticas que sufoquem o descanso desse dia. Os cristãos devem se deleitar no Senhor através de exercícios públicos e particulares de adoração. Os cristãos devem organizar o domingo de uma forma que o nome do Senhor seja honrado. Pois, disse Paulo: "23Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas são lícitas, mas nem todas edificam. [...] 31Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus." (1Co 10.23,31 ARA).
 
Acredito que as discussões referentes a esse tema são benéficas porque podem conceder oportunidades singulares para que os cristãos aprendam sobre o Dia do Senhor. Infelizmente, há muita ignorância quanto ao assunto. Há posições extremadas quanto ao assunto. Então, os pastores reformados do nosso país poderão ensinar sobre o Dia do Senhor, pois uma igreja que possui a compreensão adequada da doutrina conseguirá solucionar questões extraordinárias e seculares com mais sabedoria e prudência. A ignorância pode conduzir ao legalismo ou liberalismo. E nós devemos fugir de ambos. Conforme disse Martyn Lloyd-Jones “os pêndulos sempre procuram os extremos e o equilíbrio está sempre no centro".






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